Seus restos são aquelas coisas ou quase coisas, quase objeto que você carrega a vida inteira e não sabe bem por quê. Muda de casa, de cidade, de emprego e ela te acompanha. As vezes some um tempo e aparece em algum lugar imprevisível na casa. Pode ser um pião de rodar da infância, um pedaço de tijolo quebrado, um patinho amarelo comido em parte pelo Rex, uma quase coisa. Não faz parte de uma memória previsível, institucional. É uma quase coisa, por vezes nomeada coisa, que perdeu sua função no tempo, mas que constitui memória visível, não óbvia e que você não sabe bem por que carrega aquilo, mas também nem se pergunta o porquê, você a guarda sempre. Coisas afetivas não previstas e nem preparadas. Você pensa que já trocou quase todas as células do corpo a cada 10 anos, por várias vezes e quase de si não carrega restos, mesmo assim por vezes aparece na sua memória, do nada, o quase objeto-coisa.
Sidney Tamai